AS ORIGENS GEOLÓGICAS DA ARMAÇÃO DOS BÚZIOS

Prof. Dra. Renata S. Schmitt
Professora da Uerj e UnigranRio
e-mail:
renataschmitt@uol.com.br

O relato da evolução histórica de Búzios vai muito mais além dos quilombos, das tribos indígenas e dos episódios de subida e descida do nível do mar. Antes do homem habitar este pequeno paraíso na Terra, ele precisou ser construído, suas bases rochosas foram moldadas pela natureza em eventos de bilhões e milhões de anos atrás. Os geólogos podem contar como e quando se desenvolveram estes processos, pois as rochas que afloram em Búzios são testemunhas desta pré-história.

Há 520 milhões de anos, no período Cambriano, a região que hoje abriga o município de Armação dos Búzios fazia parte de uma gigantesca cadeia de montanhas, tão alta quanto o Himalaia asiático. Esta comparação é resultante da semelhança entre as rochas que hoje são geradas nas montanhas himalaianas e as rochas mais antigas do sudeste brasileiro. Atualmente o Himalaia asiático está em plena ascensão devido à colisão entre a massa continental que abriga a Índia e a massa continental do sul da Ásia.

O Himalaia brasileiro ancestral também foi gerado por colisão entre blocos continentais no passado geológico. As terras da América do Sul e da África se uniram, fechando o antigo oceano Adamastor que existia entre estes blocos. A união do Brasil e da África gerou um continente ainda maior denominado Gondwana, descoberto no início do século vinte pelo cientista alemão Alfred Wegener, incluía também as atuais terras da Austrália, da Índia e da Antártica.

As rochas Buzianas registraram os episódios finais da formação do Gondwana. São constituídas por minerais que se recristalizaram sob pressões e temperaturas muito altas, condições típicas de um regime de colisão de massas continentais. Estas condições extremas transformaram as rochas vulcânicas e sedimentares, que antes formavam o antigo oceano Adamastor, em rochas metamórficas. A rocha mais comum em Búzios é o gnaisse (típica rocha metamórfica), mas pode-se encontrar também uma rocha verde-escura chamada anfibolito (composta por anfibólio - um mineral com ferro e magnésio).

Alguns minerais obtidos em Búzios forneceram também pistas sobre quando ocorreu este evento colisional. Através de análises químicas de alta precisão, foram medidas as razões isotópicas entre o elemento urânio (U) e o elemento chumbo (Pb) em minerais como o zircão e a monazita. Estas razões permitem o cálculo da idade de formação dos respectivos minerais com o método de datação de isótopos radiogênicos. As idades de formação dos minerais de Búzios se distribuíram no intervalo de 520 e 495 milhões de anos atrás, em pleno período Cambriano. Nesta época, a terra sofria grandes transformações biológicas com a evolução e aparecimento dos primeiros seres vivos macroscópicos, ou seja, visíveis a olho nu. O Cambriano é o primeiro período do Éon Fanerozóico (faneros = visível; zóico = vida) e antecede o período Ordoviciano, quando surgem os primeiros peixes e os vegetais começam a habitar as terras continentais.

O nível dos mares começava a subir muito o que mais tarde levaria os peixes marinhos a dominar os ambientes de água doce e evoluir para os anfíbios.

As transformações geográficas também eram grandes na Terra pois o paleocontinente Laurentia (atual América do Norte) estava se isolando, como acontece hoje com a Austrália.

A região sudeste do Brasil estava em plena ascensão com a construção de montanhas de porte Himalaiano. Orogenia (oros = montanha) é o evento de formação de montanhas. Considerando as idades dos minerais obtidas em Búzios, este episódio foi denominado Orogenia Búzios.

   
   
Dra. Renata S. Schmitt
 
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